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Queimada na floresta em Altamira, no Pará. Dados do Inpe indicam que o fogo provocado segue rastro do desmatamento (Foto: Emiliano Capozoli/Ed.Globo)
Oito dos municĂpios com maior nĂşmero de focos de fogo na AmazĂ´nia estĂŁo na lista dos dez mais desmatados este ano, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), relativos aos primeiros oito meses do ano. Isto indica que, na floresta, a queimada segue o rastro do desmate.
Um caso emblemático do “modus operandi” do desmatamento na AmazĂ´nia foi o “Dia do Fogo”, que aconteceu no dia 10 de agosto, em Novo Progresso, sudoeste do Pará, uma das cidades da lista das mais desmatadas do paĂs. Neste dia, convocados por um grupo de Whatsaap, grileiros, comerciantes e fazendeiros da regiĂŁo atearam fogo em áreas de mata, concluindo o processo de desmatamento iniciado meses antes.
Os dados do Inpe apontam que Novo Progresso, São Felix do Xingu e Altamira tiveram números recordes de desmatamento e queimadas este ano, em relação a anos anteriores. O desmate foi tão intenso que faltou óleo queimado para lubrificar as motosserras.
Para acelerar o corte das árvores, foram recrutados operadores de vários cantos da Amazônia e até do Nordeste para as florestas de São Felix do Xingu, Novo Progresso e Altamira. O óleo queimado facilita a penetração dos dentes das motosserras para o corte das toras maiores.
Em um áudio ao qual a revista Globo Rural teve acesso, um produtor da regiĂŁo comenta com um amigo (Ricardo) a devastação da floresta. A mensagem Ă© atribuĂda a Neri Prazeres, ex-prefeito de Novo Progresso
“Deixa eu te falar, cara. Eu tĂ´ bastante preocupado com o que está vindo por aĂ. Olha. O desmatamento aĂ na regiĂŁo, naquela regiĂŁo de SĂŁo FĂ©lix do Xingu ali, divisa…prĂłximo a Progresso e no Progresso, vai ter maior…diz que tá tendo o maior desmatamento da histĂłria”, diz ele.
A ação humana
Diferente do que acontece nos Cerrados, onde o fogo faz parte da dinâmica do bioma, na Amazônia ele é um elemento raro. A floresta tropical é extremamente úmida e a imensa maioria dos incêndios é provocada pelo homem, como disse Ane Alencar em entrevista à revista Época. Diretora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental na Amazônia e especialista em incêndios na floresta, Ane alerta que a ação humana mudou o regime do fogo na região, com desmatamentos e mudanças climáticas.
De acordo com o Instituto, dos 45.256 focos de fogo registrados no bioma Amazônico de janeiro ao final de agosto, 33% ocorreram em propriedades privadas, que cobrem 18% da área total da Amazônia. Em imóveis situados em áreas de floresta, por força do Código Florestal, o produtor rural deve preservar 80% da área como reserva legal.
Parte dos desmatamentos em áreas privadas acontece pela impaciência do fazendeiro, que resolve ampliar a sua área de produção sem a licença ambiental. Devido à burocracia, a autorização para o desmate costuma demorar vários anos.
Mas a maior parcela do desmatamento ilegal é causada pelos grileiros, que invadem áreas públicas e até mesmo privadas. Os grileiros contratam trabalhadores para cortar as árvores de maior valor, como ipê, mogno e castanheiras.
Depois, retiram as árvores de porte mĂ©dio com o uso do “correntĂŁo”. Presas a tratores de esteiras, as correntes de aço arrastam as árvores atĂ© derruba-las. É possĂvel comprar essas correntes atĂ© em sites de comĂ©rcio eletrĂ´nico, como Mercado Livre, MF Rural e OLX.
Após o corte raso, espera-se o fim da chuva para queimar o mato seco. A antiga floresta está pronta para receber as sementes de brachiaria e se transformar em um enorme pasto. O próximo passo é vender a nova fazenda.
Site anuncia correntão para desmatamento (Foto: Reprodução/Globo Rural)
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Globo Rural